especial dia das mães

Mãe, mainha, mamãe, mom, Regina, Carminha, Elisabete, Paula, Roza e mais uma Regina. Vocês que nos deram o alimento primeiro e cuidam sempre para que nunca falte doçura, hoje são lembradas também aqui. O Quanto Baste convidou suas filhas para  dizer a cada uma que gosto esse amor tem. E para agradecer por partilharmos juntas tantas memórias em volta da mesa.

IsabelaRegina_quantobaste_blog_gastronomia_memoria_feliz_dia_das_maesMainha me faz bolo xadrez com guaraná para adoçar o natal em família, chiringa e chimango de cada dia, sopinhas para curar os males e feijoada que é para lembrar que a vida é festa também.

MarinaRegina_blog_quantobaste_gastronomia_historias_felizdiadasmaes
Quando eu era pequena e ela estava cozinhando, eu ficava de ajudante separando os ingredientes e vasilhas e brincava que estávamos apresentando um programa de tv. Minha receita favorita era bolachinhas de nata. Enquanto ela cortava em pedaços pequenos a tira da massa, eu fazia uma marquinha com o garfo. Nada de usar forminha de coração ou flor. Eu gostava da irregularidade sutil dos tamanhos e das marcas de garfo. Não era a coisa mais linda do mundo de se ver, mas era nossa. Era eu e ela ali em forma e gosto de biscoito.

MarianaRoza_blog_quantobaste_gastronomia_historias_felizdiadasmaesTalvez seja essa minha primeira lembrança: a fumaça quase amarela que saía do prato de mingau de Mucilon com Leite Ninho! O quarto ficava coberto por essa névoa meio cremosa e adocicada, em contraste com meu bruto protesto. A batalha muitas vezes terminava em choro – meu e da combatente que iniciava a vida com o privilégio de cuidar de um bebê raivoso. Pudesse eu voltar no tempo só para ajudar aquela mãe que teve que aprender tudo sozinha, sem internet, sem conselho de mãe protetora, rasparia o prato. Por sorte nossa, a luta para conseguir me tirar do seu peito e me apresentar a todos os outros sabores do mundo teve fim diante de uma ideia que mudou totalmente a minha vida. Mamãe sentou o neném de calcinha de babados na pia de mármore da cozinha e começou a contar histórias enquanto cozinhava. E conversando muito, voluntariamente provei um pedaço da batata cozida e mais outro e outro e estava salva. Nós duas estávamos salvas. A batata virou purê, virou leite com nescau em copo de verdade, depois virou feijão e arroz e macarrão e carninha e tudo que a imaginação dela me levasse. Ela arrastava uma cadeira até a pia, me dava uma faca de verdade, me contava histórias muito melhores que as das princesas. Me deixava picar o vinagrete de domingo, ou cessar a farinha para o pirão, enquanto papai ia ajudando fazendo carinhas de ketchup em tudo. Ela me ensinou a beleza de fazer a própria comida e de elogiar os pequenos esforços para continuar criando. Nos fez sentar à mesa e desligar a tv pra gente se aproveitar mais, passou abacate no meu cabelo e “queimou” coca-cola enquanto a gente cozinhava e mudou tudo. O Slow Food foi ideia dela. A Revolução da Comida ela que começou. Até hoje ela finge que aprende a fazer algum prato comigo, me pede conselhos para usar brócolis ou me manda vídeos de moquecas borbulhantes para diminuir a distância. Eu sei que no fundo ela quer só me ver sempre por perto, pronta pra futucar suas panelas à procura de salvação ou só mais um pedacinho de batata.

MajuCarminha_blog_quantobaste_gastronomia_historias_felizdiadasmaesA primeira lembrança que tenho de minha mãe e eu na cozinha vai além dos deliciosos pratos que ela costuma fazer, com tanto carinho, principalmente, aos domingos. Porque é na cozinha que nos colocamos a tricotar pensamentos e poesias. Sentadas na mesma cadeira, debruçadas sobre a mesma mesa que nos acompanha desde que eu era pequenininha, cozinhamos juntas episódios de primeiro amor, vocação, viagens, medos, coragem… Também enxugamos lágrimas quando houve a partida para São Paulo. Neste espaço acalentado por tantos sabores, experimentamos o doce, o azedo e nos orgulhamos de salpicar versos às memórias de tardes regadas à café, bolo de fubá e histórias. Longe dela por alguns milhares de quilômetros, na minha cozinha, minha mãe é a receita que gosto de compartilhar com meus amigos. Te amo, mainha!

IsabelaPaula_blog_quantobaste_gastronomia_historias_felizdiadasmaesMinha mãe tem um problema em calcular a quantidade de comida que faz. Sempre exagera. Teve um Natal em que cada um ficou responsável por levar um prato e ela achou razoável encomendar 400 pastéis pra 20 pessoas (além de fazer uma lasanha vegetariana, que a princípio era pro meu pai mas acabou alimentando metade da família). Depois que eu me mudei pra São Paulo, sempre que voltava pra BH no fim de semana pra visitar eu era surpreendida com a casa abastecida com todas as minhas comidas preferidas. Minha mãe cozinhava uma quantidade obcena de rigatoni com molho de tomate e lagarto cozido desfiado. Meu pai comprava absolutamente tudo o que ele conseguia lembrar de ter me visto comendo alguma vez na vida. E eu tinha menos de 48h pra experimentar um pouco de tudo. Se por acaso me esquecesse de comer algo, aquilo inevitavelmente entrava pra lista do “ela não gosta” e nunca mais voltava pra dispensa, independente do meu amor por ela. Teve uma vez que fiquei com vontade de comer gelatina colorida e caí na besteira de avisar minha mãe antes de viajar pra casa. Quando abri a geladeira tinham 4 travessas enormes de gelatina. Eu caí na gargalhada enquanto ela explicava que uma era de morango, abacaxi e limão; a outra de cereja, manga e framboesa; a outra de pêssego, limão e amora; e a outra de uva. Uva? É, filha, eu comprei um monte de gelatina mas achei que a uva não combinava com nada. Mas você gosta de uva né? Então taí.

GabrielaElisabete_blog_quantobaste_gastronomia_historias_felizdiadasmaes
Sempre nos víamos pouco durante a semana, pois você trabalhou tanto para garantir que nada faltasse em casa. Você sempre foi essa mulher forte e admirável. Não tinha café da manhã, almoço e nem janta com você, mas tudo bem, o final de semana sempre estava ali batendo na porta para nos reunir. Sábado era dia de comer arroz, feijão, farofa e qualquer outra mistura, desde que não faltasse esses três elementos importantíssimos. Hmmm, acho que é por isso que essa comidinha é minha preferida de todos os tempos! E aqueles chips de batatinha e beterraba que fizemos errado num dia e acertamos no outro? Os domingos eram, com certeza, meus dias preferidos, pois sempre tinha uma comidinha diferente: torta, risoto, macarrão, nhoque, uma panqueca maravilhosa e meu querido e tão saudoso ravioli. A gente se reunia na mesa, comia, aproveitava a companhia um do outro e ia feliz para a semana que chegava, já esperando o próximo final de semana que tava ali, batendo na porta já. A cozinha sempre me trouxe momentos felizes, pois era lá que pedia pra comer uma cebola crua, torcia para que você errasse a primeira panqueca pra eu poder comê-la, comemorava o roubo de um nhoque fresquinho, cheio de farinha, sem que ninguém percebesse, rolava no chão quando recebia a notícia de que teria aqueles travesseirinhos deliciosos de espinafre e soltava fogos de artifício quando você fazia aquelas trufas de chocolate. Trufas essas que me receberam com tanto carinho na volta do meu primeiro mês longe da família. Comida é aquela que reúne, não é? Que coloca a família na mesa, faz a gente amar a presença um do outro e já mata a saudade que vai ficar no resto da semana. Não importa que a gente não consiga se ver durante a semana, contanto que possamos cozinhar juntas no final de semana. Sempre serei grata por todo o sacrifício que você fez pela família e por estar comigo independente da minha escolha. Obrigada, mãe. Amo você.

 

 

um regalo para Teté

Escorrego pela Mourato e dobro a esquina com saudades da Itália, mais precisamente aquela do queijo quente que fica por cima da pizza e não escorre, veja bem, derrete mas não escorre. Rolo pelas escadas do metrô e entro no vagão preferencial. Toda vez que faço isso eu penso que se a equipe de televisão vier me entrevistar sobre o porquê sou preferencial eu posso balançar a cabeça em sinal de reprovação e ainda falar de testa franzida “bom senso”.

Nessa altura a rebeldia tomou conta de mim e vai ser sim, pizza na segunda-feira, pizza preferencial. Antes de chegar a broto, um casal senta na mesa ao lado e percebo que o senhor de meia idade é italiano. Pronto. Eu até que gostaria de prestar atenção nessa de atum com queijo buchento e massa fina grossona e pesada, mas estou com o queixo praticamente encostado no de Teté, sugando qualquer palavra desse mezzo italiano mezzo português com uns ecco no meio.

Chega uma porção de bruchetta na mesa deles e eu nunca vi coisa parecida. Na Itália que eu fui chegam umas duas no prato e va benne, mas Teté pegando tantas e cortando tudo de garfo e faca me faz olhar muito desconfiada para veracidade dessa sua história de ser italiano galã coroa namorado da senhora que traduz a conversa toda para a amiga. A amiga é outra senhora japa e ruiva que “adora bailar” e repetir todas as frases. Ela sacode a sacola amassada de havaianas e eu chuto ser um vinho ruim – dá pra sentir o cheiro da treta daqui. “Um regalo paraTeté”, ela diz tantas vezes gesticulando que quase levanto e digo que Teté já entendeu. Ele faz que gosta e beija suas bochechas, prendendo sua cabeça entre as mãos. Quase sinto ciúmes.

Nessa altura, estou agradecendo mentalmente em um italiano fluente que não me pertence por Teté me lembrar o quanto eu gosto dessa língua e que saudade não só do queijo derretido sem bucha por cima da pizza imensa e individual e da garrafa de vinho de um euro que me atiravam pedra porque era tão ruim, mas nem de longe parece o suco de uva podre que estou tomando na taça porque só posso pagar uma taça disso que certeza é refugo das uvas que viram suco Dell Valle sabor uva que podem conter traços de soja e amendoim.

Obrigada Teté, muitas aulas, ci veddiamo pelo bairro quando você voltar de Maceió para visitar Mirela que está grande, comprida é o termo, a menina esticou tanto. E num pulo já estou na porta de casa ainda sorrindo. O mendigo que me pediu 50 centavos para inteirar uns ovos está preferencialmente me esperando, de olho vidrado no resto da pizza bomba que eu ainda levo como troféu. Me dá um pedaço e eu tento dizer que ainda nem comi, entretida que estava no papo de Teté, amigo. E da boca de quem me desejou uma ótima semana mais cedo eu desci diretinho pro inferno. Será que é perto da Itália?

 

era você na Purpurina com a Harmonia?

Meu peito anda cheio de sol e navega em água limpa, então venha, que prometo esquecer pronomes, desvio olhares tortos e te beijo no meio da rua. Tem vista nova pela janela e você disse que vinha conhecer, então venha, que prometo continuar não te fazendo as promessas que a gente deve ter medo. A tevê é emprestada, a sala bagunça sozinha mesmo, minhas habilidades são aquelas poucas e de sempre e as piadas poucas e as mesmas, mas comprei flores do tipo que se deve colocar em jarros, se eu tivesse algum.

Passo na rua e sinto o seu cheiro, ando na rua e vejo você, vejo você e me escondo, corro pra te ver, passo na rua e acho que é você e o coração dispara. Era você na Purpurina com a Harmonia? Por onde você anda, não quer vir, beijo na janela, poucas habilidades, flores sem jarro? Venha que eu aprendo a ficar quieta, a não te escrever canções banais, a não te reclamar saudades, a não te falar que venha sim. Venha que eu prometo aprender todas as receitas vegetarianas só pra você ser feliz de barriga cheia.

Linguini com creme de abóbora

200g de abóbora bem madura
200ml de creme de leite fresco (ou uma caixa de creme de leite)
1 cebola pequena em cubos
2 dentes de alho
2 colheres de azeite de oliva
1 colher de sopa de manteiga
100g de queijo parmesão
QB de pimenta do reino e sal
300g de linguini cozido conforme as instruções da embalagem

Refogue os cubinhos de cebola com o azeite e, depois de dourados, junte os dentes de alho amassados. Adicione a abóbora cortada em cubos e refogue por dois minutos. Coloque água até cobrir a abóbora e deixe cozinhar. Depois de cozida, reserve a água do cozimento e bata a abóbora no liquidificador até virar um creme e vá adicionando a água do cozimento até que vire uma pasta suave (ou o que na escola chamavam de nappé leve). Volte a mistura para a panela e adicione a manteiga e o queijo. Quando começar a formar as borbulhas (minha mãe chama de “bufa de velho”, o que considero bem explicativo), desligue o fogo e adicione o creme de leite e ajuste o sal e a pimenta se julgar necessário. Una ao linguine cozido ou à outra massa longa que preferir. Não sei se está correto harmonizar com vinho tinto, beijo e
Criolo, mas acho que você vai gostar. Se vier e quiser continuar comigo.

 

mas que seja torresmo enquanto dure

Ele toma o meio da roda e começa a narrar o dia do acabou-se. Copo de cerveja ruim na mão, será assim, ele diz com pompa. Que a morte seja duvidosa e demorada, pra juntar muita gente na frente do Nina Rodrigues. Quem será aquele importante que deixa Salvador tão incompleta? O zumzumzum vai invadir a cidade.

Pois quero uma carreata comprida, que me levem de caixão aberto que é preu sentir cheiro de tudo. Desçam pela Contorno que é minha vista preferida da cidade e sigam até uma geladinha na Ribeira. Um vermelho inteiro frito com muita farofa e mais um de moqueca pra quem é de moqueca. Pra aproveitar a viagem, quem quiser se servir de sorvete que fique à vontade. Eu espero aqui com mais uma Itaipava.

Vamos esticar ali nos Internacionais pra comer uma dúzia de lambreta afogada no azeite doce e pocar um pastel de camarão que essa viagem cansa e ficar de estômago vazio é de matar. A fila comprida vai pegar a orla e, por Yemanjá, não abro mão de dar adeus ao Rio Vermelho. Amigos, eu peço, não esqueçam de um acarajé de Cira quente da hora, pimenta em uma banda, vatapá, salada e aqueles camarões graúdos. Vou sentir saudade desse péssimo atendimento, essa delicadeza no maltratar que só uma boa baiana de acarajé sabe oferecer.

A carreata segue atrapalhando o trânsito até a antiga Rodeio, lá na Pituba. Vapt-vupt, é só jogar umas três fatias daquele leitãozinho à pururuca no meu caixão e arrastar o carro. Bora pra Itapuã pegar um polvo com pimentão vermelho lá no Papito e mais uma Skol que a sede aumentou. A gente já aproveita e brinda com Vinícius e vocês estarão livres para os afazeres oficiais. O choro é livre, mas não por muito tempo, que velório é um acontecimento bom pra reunir os amigos e contar umas piadas. E marquem logo um churrasco pra falar mais dos meus causos. Quem sabe eu também não apareço?

 

domingo eu sempre frito uns ovos

Acorda com o bico do faminto e num pulo alcança a cozinha. Domingo ele já está na frente da TV esperando a Fórmula 1. Um ou dois, dois, gema mole, um cacetinho com pouca manteiga, café com uma colher de açúcar, não, uma e meia. Mastiga tudo sem dizer, passa aí mais um pão. As crianças abrem os olhos já gritando ovo frito. Ela está coberta por uma áurea de sebo translúcido quase angelical e, depois do ovo no prato, esquenta as fatias de pão de leite com o restinho da manteiga que fica grudada na frigideira.

No almoço faz lasanha, mas tem que ser meio a meio. O marido prefere molho bechamel com presunto e queijo, o filho só come se for molho à bolonhesa. Quase se esquece de comer. Lasanha quase pronta o filho manda um whats (não tá no quarto ao lado, porque não vem aqui falar logo?). Diz que a namorada vem também, você sabe que todo mundo ama sua lasanha, mas pra ela só come se for com molho de tomate, frango desfiado e queijo. Você quer me matar de fome, quase pronto, a cerveja na geladeira, arrota trocando o canal. Sentam mexendo no celular, comem tudo, você é a melhor, se quiser eu lavo os pratos depois de uma partidinha aqui. Inútil esperar, quando percebe a cozinha já está limpa de novo, então aproveita pra botar na máquina as roupas que tão acumulando e passa umas camisas, bosta de domingo, grita o abençoado, nada de bom nessa televisão.

A noite chega, ainda tem lasanha sim, ela esquenta rapidinho e lava depois os pratos, passa um pano aqui no fogão e já basta. Amanhã começa tudo de novo, trabalho e fazer almoço e limpar o banheiro dos fundos, ainda tem merenda para as crianças? A fome só chega tarde, belisca um pedaço da lasanha e pensa até que cozinha bem mesmo. Fosse outra vida ela ia fazer um desses cursos gourmet, mas em uma escola que custasse menos de dois mil por mês, que dinheiro não tá dando em árvore não. Uma vez ela foi num restaurante e disse pro chef que ia gostar muito de trabalhar numa cozinha daquela, fazendo janta, limpando tudo, até lavando os pratos depois. O chef riu solto e disse que só falava isso porque não sabia o quanto é dura a vida de restaurante, trabalho pesado e sem briga de mulher porque na cozinha tem muita faca. Coisa de homem, minha senhora, coisa de macho.

Ragù alla bolognese

300g de carne de porco (lombo ou paleta)
150g de barriga de porco (ou a famosa “pancetta”, mas se você pedir no açougue por esse nome vai pagar mais caro, escuta o que tô dizendo)
300g de uma boa passata de tomate ou de pomodoro pelatto (o resultado com o tomate fresco não é o mesmo, tá?)
100 ml (1/2 copo) de vinho branco
100 ml (1/2 copo) de leite integral
Quanto Baste de azeite de oliva, sal e pimenta preta
200 ml (1 copo) de creme de leite fresco (opcional)

Para o caldo de legumes (brodo)
50 g de cenoura
50g de salsão
100g de cebola

Comece pelo brodo, picando grosseiramente a cebola, o salsão e a cenoura. Em uma panela funda deixe suar por cinco minutos os vegetais e depois adicione água fria até cobrir tudo. Cozinhe em fogo baixo, sem ferver, sem tampa, durante 30 minutos e reserve. Esse caldo é uma potência em sabor e pode ser usado para risoto e ensopados diversos (sempre guardo um pouco no freezer ;)).
Para o ragù comece dourando a pancetta, adicionando um pouco de azeite conforme a necessidade (se a peça tem mais gordura talvez nem precise, basta ficar de olho na panela). Depois de bem frita, junte a carne de porco até que a cor rosa desapareça. Adicione o vinho branco e mexa até evaporar completamente (essa técnica se chama “deglaçagem”). Adicione a passata e regue com o brodo sempre que necessário. O molho deve ficar sempre em fogo baixo, cozinhando por duas horas. No fim, adicione o leite para equilibrar a acidez e o creme de leite se optar por uma pasta seca (não fresca). Receita registrada no dia 17 de Outubro de 1982 pela Delegazione Bolognese dell’Academia Italiana della Cucina na Camera di Comercio di Bologna e experimentada por essa que vos fala no dia 08 de agosto de 2015, em um Tagliatelle Alla Bolognese, numa rua sem saída mas coberta de sol em Bologna.

 

breve inventário das melhores coisas do mundo

Gole d’água depois da caminhada comprida, mar na ponta do nariz, quando a música favorita toca no meio da rua, raspar a lata de leite condensado, tocar violão na praça, lamber a cobertura do bolo de cenoura, o cheiro de bala de genipapo quando é São João, queijo que derrete por cima da lasanha, pão de alho no churrasco com os amigos, acarajé quente depois de meses de espera, quando o sol mergulha no mar, banho de chuva no calor de janeiro, aquele momento em que começa a tocar Evidências, cheiro de café de coador no meio da tarde, beijo de língua, picolé de amendoim na praia, costelinha cozida por muitas horas em fogo baixo, colo de mãe, chuchar o pão no molho da moela, chocolate quente e pijama de manga comprida, encontrar um arco-íris na tarde cinza, roubar um pedaço da casca do bolo, plantar e colher, dançar muito feio sem ligar, seu nome na lista de aprovados, cambalhota, spritz na tarde quente, o arroto depois da cerveja, abraço de amigo que mora longe, forró bem dançado, presente sem hora, cheiro de manjar de coco na panela, arrancar a cabeça e as patinhas da Tortuguita, taça de vinho à luz de velas, geladinho de kisuco de uva, contar uma piada boa, quando toca É o Tchan, gelato con yogurt ou frutti di bosco ou lampone ou fragole, apertar a carne do sol na farofa mãe, acordar de um sonho bom, rabo animado do cachorro quando é o dono que chega, andar na garupa, a primeira mordida no hambúrger, transformar farinha em pizza, a hora da feijoada quando é aniversário, a ligação que diz que você começa segunda, contar história de assombração ao redor da fogueira, comer farofa falando farofa, arepas pelas mãos da amiga venezuelana, sonho realizado, andar de bicicleta em linha reta, um dia inútil de Netflix, lamber a ponta do nariz e tentar lamber o cotovelo, spaghetti alla carbonara, quando a onda bate, rir de doer as bochechas, rir até chorar, campeonato de arroto, comer com a mão, a primeira vez que você costurou, sopa creme de brócolis, domingo que começa com ovos mexidos, a primeira tatuagem, escolher a pedra mais bonita da praia e deixar lá mesmo, escrever uma carta de amor, chorar porque está feliz, tocar maracas como se soubesse, goiabada com queijo, quando o wi-fi é liberado, nova temporada da sua série favorita, pão delícia quando sai do forno, bola de leite ninho que fica por cima do nescau, manga descascada direto da geladeira, comida de festa de criança, lembrar que sobrou a pizza do jantar, rigatoni alla matriciana, você por perto.

Rigatoni alla matriciana

150g de guanciale (guanciale é um prosciutto feito com a bochecha do porco. O verdadeiro é o guanciale da cidade de Amatrice, o que dá o nome ao prato. Também é verdade que é o que o caracteriza e se você estiver em Roma pode provar sorrindo. Se quiser testar no Brasil, pode fazer com um bacon gordo, eu não conto a nenhum italiano, tá? Prometo que será uma delícia).
400g (uma lata) de tomate pelado.
1 cebola pequena cortada em cubinhos.
1 colher de sopa de azeite de oliva.
1 taça de vinho.
50g de pecorino romano ralado (outro que é difícil de encontrar no Brasil. Eu vou virar a cabeça pra direita e você troca por um bom parmesão ralado em casa).
Quanto Baste de pimenta calabresa, sal e pimenta preta.

Doure o guanciale em cubos pequenos e junte o azeite de oliva e a cebola. Quando a cebola estiver dourada, acrescente o vinho branco e deixe evaporar todo o álcool. Junte o tomate pelado e deixe cozinhar em fogo baixo, sem ferver, por 30 minutos. Ajuste o sal e as pimentas ao seu gosto e reserve. Siga as instruções para preparar a pasta indicadas na embalagem e, depois de cozida, disponha sobre o molho, mistrurando com delicadeza. Sirva imediatamente, com o pecorino ralado por cima da pasta. Vinho tinto combina e essa receita serve bem dois. Melhor se for compartilhada com sua pessoa preferida.

 

ciao, Catarina!

Catarina gosta do meu quarto também. Não basta assistir a todas as aulas de italiano comigo, agora insiste em dormir na minha cama. Hoje me acordou às 06h, só pra mostrar seu peso em meu joelho. E, depois de emputecer, me alegra a sensação de estar incomodada de novo. Quando cheguei em Camerino, essa cidadela medieval com pouco mais de 6 mil pessoas me assustou o sossego – nada pra pousar na sopa, os mais velhos papeando italiano na praça da fonte, o comércio dormindo das 13h às 17h.

Apesar do tamanho da cidade, cada casa separa seu lixo e as regras são severas. Saco azul para reciclável, amarelo para não reciclável, branco para orgânico, de papelão para papel, tudo com horário, vasilhame e dia estabelecido para o descarte. Nunca vi o carrinho de lixo passar, nem o ser-humano que o pilota, mas milagrosamente tudo desaparece antes do amanhecer.

Catarina_blog_quantobaste_pizza

Por um euro e cinquenta, você abocanha um pedaço de pizza quente. Massa fina, molho sugo apuradíssimo, mozzarela com pouco sal e muita derretência, uma folha de manjericão (se for seu dia de sorte). Simples, delicioso. Rotina igual é a de tomar gelatto, o sorvete italiano que não merece ser chamado de sorvete. Na única sorveteria do centro, minha língua já decorou todos os sabores: chocolate com laranja, caffè, flocos, frutti di bosco (frutas vermelhas), menta, amarena, yogurt, tiramissù, chocolate, coco e nutella, avelã, limão, melão, pêssego, creme. Dois euros o copo pequeno, com um biscoito redondo e crocante que vai por cima. Simples, delicioso.

Os ingredientes têm um sabor delicado também. Cereais, legumes, frutas muito frescos e bem longe da variedade que encontramos no Brasil, mas de qualidade surpreendente. Variável totalmente oposta nas seções de laticínios, vinhos, azeites e salumeria. Até no centro de Camerino é possível encontrar umas cinco lojas que consideraríamos boutiques com presuntos, queijos, salames e um universo de ingredientes que infelizmente nunca chegaram no nosso bolso e na nossa mesa brasileira. Na panela, aqui menos vira mais e tudo ganha contornos bem mais simples. Mas não menos deliciosos.

3_Catarina

Na tentativa de agitar a rotina da cidade pacata, a escola em que eu estudo língua e cultura italiana organiza excursões pelas cidades do entorno. Já comi pizza em Roma, vi as trufas negras de Gubbio, devorei um panino com chá gelado em Civitanova Marche e um sanduíche amassado no fundo da mochila na praia paradisíaca de Sirolo. Hoje, um pouco antes de provar o prosciutto di Parma e a tagliatella al ragu Bolognese em Bologna, eu olhei ainda sonolenta a mosca que se debatia no vidro do ônibus. Até aqui, Catarina!

 

seja brega em Roma, seja feliz

Em Roma por dois dias só ouvia minha mente repetir o manjado “quando em Roma, faça como os romanos”. Não estou sozinha, tenho certeza. Lá vai tanta gente pensando que “quando em Roma” é suar todo o Panteão, lamber qualquer gelato, empinar pau de selfie no céu “azul tipo Roma”, pegar a maior fila vista depois que Cristo #partiu pra entrar no Coliseu.

Eu não sou melhor, apareço na pesquisa turista otária 2015. Tanto que “quando em Roma” comprei água mineral tendo fontes de água potável desperdiçando tudo no chão, comi cacio e peppe ruim de doer, lambi um gelato que sou mais um capelinha na praia do Porto. Mas sei que nem sempre sou essa otarice de um metro e meio. Na primeira noite, cheguei sem guia, sem wifi, sem tim a um bom restaurante só pelo cheiro e pedi um spaghetti alla carbonara e um tiramisù (escolha mais óbvia que capa de Veja) imaginando “nossa, com certeza esse garçom velhinho vai me tratar como turista otária e imediatamente serei”. Só que, ó Deus dos italianos, foram os melhores exemplares de carbonara e tiramisù de toda minha vida!

QuandoEmRoma4

Tanto que, depois de algumas escorregadas gastronômicas, pensei que quando em Roma, faça o que quiser, então voltei ao Al Grappolo D’oro no dia seguinte. Não menos maravilhosos estavam os tortelli di ricota e spinaci (massa fresca recheada com ricota e espinafre) como primo piato, o arrosto di spigola (robalo assado) como secondo e o espresso. Porque meu apetite paga em reais tive que parar por aí e, sentada na mesma cadeira da primeira vez, a toalha de mesa ainda mostrava a mancha de chocolate do tiramisù que deixei cair na noite anterior. Foi aí que pensei: se deixei uma marca aqui, fiz parte da história dessa cidade. Que brega. Coisas que uma turista otária pensa, quando em Roma.

 

amor em pedaços

Primeira vez. Mãos hesitantes pra receber o capacete, mãos hesitantes segurando o seu peito contra o meu corpo, pés hesitantes escorregando as havaianas, apoiar pé direito, apertar seu ombro direito, passar a perna. Me prender em você e ir, hesitante, na moto. Primeiro dia e você vai como se fosse entregar tesouro, bolo confeitado pra casamento, boneca de louça. Você fala através do capacete, mas se eu responder eu caio? Se eu respirar fora do compasso, eu caio? Se eu apertar menos meu corpo contra o seu, eu caio? Você diz que tenho que acompanhar seu corpo na curva, precisamos ser uma coisa só bem perto do asfalto. Você vai a 10 a 60 ou a 30 e eu tento fechar os olhos. Se eu fechar os olhos, eu caio? Se eu cair, você vem comigo?

Segunda vez. Mãos hesitantes pra receber o capacete, ata pra mim essa faixa que vai debaixo do meu queixo? Pés seguros nas botas, apertar seu ombro, passar a perna, seu peito, sua barriga, seu estômago, suas coxas, seu cheiro, seu pau por debaixo da bermuda velha. Me prender em você, hesitante, e ir. Já segundo dia e você vai acelerando e furando sinal e me jogando numa corrente de vento que faz minha cabeça ir levemente pra trás. Você fala através do capacete que depois das 23h não dá mais pra seguir as regras. Se você passar por cima assim do canteiro, eu caio? Se você passar por cima assim da lombada, eu caio? Você vai a 79 que eu já consigo ver muito bem e eu acho isso muito rápido, especialmente se eu for cair. Se eu cair, você vem comigo?

Terceira e eu seguro o capacete com as duas mãos e dou um nó na faixa que vai debaixo do queixo. Passar a perna e segurar você com as mãos espalmadas no seu peito. Seguir o vento, furar o trânsito, virar seu corpo na curva, ser suas coxas e seu cheiro no vento, sair do eixo sem cair no vento. Se eu soltar sua cintura por quase nada, eu caio? Se eu seguir com você de olhos fechados, eu caio? Se eu for muito rápido e você for muito rápido e se o vento jogar nossas cabeças levemente pra trás, eu consigo me equilibrar? Se eu não conseguir me equilibrar, você me ensina de novo seus truques de malabarista? E se eu quiser ser eu e você no vento e na curva? Vem comigo?

Amor em Pedaços
3 xícaras e meia de farinha de trigo
2 colheres de sopa de manteiga
1 xícara de açúcar
4 ovos
1 colher de fermento em pó

recheio
1 abacaxi em cubos médios
2 xícaras de coco ralado fresco
1 xícara e meia de açúcar
1 colher de manteiga
3 ovos

Comece levando o recheio para uma panela em fogo brando e deixe apurando enquanto faz a massa do bolo. É só mexer “de quando em vez” até ele ficar numa consistência de cocada cremosa. Deixe esfriar. A massa também é moleza! É só misturar com uma colher grande todos os ingredientes: fica com uma textura grudenta e você vai achar que não tem futuro. Lembre que o nome da receita é amor, no fim dá tudo certo.
Em uma forma retangular grande coloque metade da massa por baixo, o recheio e o restante da massa por cima. Leve para assar em forno baixo até ficar dourado. Corte em pedaços individuais e polvilhe açúcar de confeiteiro e canela (opcional). Eu sei que você vai reclamar que tem muito açúcar e vai comer tudo direto da assadeira, então só não deixa cair no chão da cozinha, tá?

 

leave the carne seca alone

Lá vai a carne seca pra mais um trabalho. No teste de elenco a cozinheira chega animada: tenho pra você o par perfeito, empurrando a banana da terra pro centro da roda.

A banana é madura e cumprimenta a carne seca como se primeira vez. A madame dá de ombros. Já foram torta, pastel, empada, petisco, escondidinho, ficaram por cima de beiju e cuscuz, agora o que mais?

Outros tempos aparecia a abóbora, moça macia, delicada, que adocica só um pouco a sua potência. Falar mal de aipim também não podia. Apesar do tamanhão, era só descascar que desmanchava todo. A amiga cebola, então? Fazia chorar, depois corria atrás pra colocar a carne seca sob os holofotes.

Agora tudo banana, tudo banana. E lá vem a cozinheira, com cara de esperta, banana da terra por cima da carne seca.

Carne seca acebolada
500g de carne-seca
1 cebola grande
1 colher de sopa de óleo
Sal (a gosto)

Deixe a carne seca na geladeira em uma tigela coberta com água de um dia pro outro. No dia seguinte, descarte a água, lave a carne e coloque na panela de pressão com água até cobrir. Quando começar a apitar, deixe por quinze minutos e desligue. Retire a água, desfie e reserve. Refogue a cebola em uma frigideira com o óleo (corte como quiser, eu gosto bem pequeno pra não interferir na textura) e coloque a carne seca desfiada. Cerveja boa acompanha, com certeza. Ah, e se você gostar de uma bananinha do lado, quem sou eu pra julgar?